Publicações

IA, Opinião e Propaganda Eleitoral: O Novo Risco dos Creators nas Eleições de 2026

Em 2026, o debate sobre propaganda eleitoral ficou mais sensível para quem vive de conteúdo, audiência e influência. O TSE aprovou em março a resolução aplicável às Eleições 2026 e destacou publicamente regras sobre o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral. A própria resolução consolidada sobre propaganda eleitoral também mostra como o tema da propaganda na internet e dos conteúdos político-eleitorais ganhou peso regulatório.

O problema é que parte do mercado digital ainda continua lendo esse cenário de forma simplista. Muita gente acha que o risco eleitoral só começa quando há pedido explícito de voto, vínculo formal com campanha ou contratação por candidato. Essa leitura ficou curta.

Para creator, expert, influenciador, agência e perfil de opinião, o ponto de atenção hoje não está apenas na intenção declarada do conteúdo. Está também na forma como esse conteúdo se apresenta, no contexto em que circula e na leitura que ele passa a gerar quando entra no ambiente de disputa eleitoral.

Quando Opinião Começa a Parecer Outra Coisa

Esse é o centro do problema.

Em ano comum, um vídeo pode ser lido só como opinião. Em ano eleitoral, o mesmo vídeo pode ser recebido como material de convencimento político. O conteúdo não muda necessariamente de essência, mas muda de enquadramento. E enquadramento, nesse campo, importa muito.

Isso acontece porque o ambiente muda. A audiência muda. As plataformas passam a olhar com mais cuidado para certos formatos. A sensibilidade pública aumenta. O que antes parecia apenas comentário ou análise pode começar a operar, na prática, como conteúdo político com alta capacidade de influência.

É aí que muita operação digital se complica sem perceber.

Não porque entrou formalmente em campanha, mas porque continuou produzindo como se estética, circulação e leitura pública fossem detalhes secundários.

A IA Encurtou a Distância Entre Conteúdo e Peça

A inteligência artificial piora esse cenário por um motivo específico. Ela não só acelera produção. Ela também dá acabamento.

Com IA, ficou mais fácil produzir vídeos, áudios, legendas, montagens e recortes com aparência de coordenação, intensidade persuasiva maior e linguagem visual mais próxima de uma peça organizada. Isso não significa que todo uso de IA gere problema eleitoral. Significa que a ferramenta facilita a criação de materiais que podem ser lidos de outra forma em período sensível.

Esse é o ponto que ainda está sendo subestimado.

O risco não está apenas em dizer algo proibido. Está também em produzir algo que, pela forma, pelo contexto ou pelo efeito de circulação, passe a parecer propaganda política antes mesmo de haver um pedido explícito de voto.

A Intenção do Autor Não Resolve Sozinha

Existe uma ilusão recorrente no mercado digital: a de que independência editorial basta para afastar risco.

Não basta.

Conteúdo não circula com a intenção original colada nele. Circula com leitura pública. E leitura pública, em ano eleitoral, muda rápido.

Um creator pode achar que publicou só uma opinião. A audiência pode receber aquilo como posicionamento político organizado. A plataforma pode tratar como conteúdo sensível. O ambiente regulatório pode olhar para o material de forma bem menos inocente do que o autor imaginava.

É justamente esse desencontro que torna o tema delicado.

Quem trabalha com audiência precisa entender que liberdade editorial não elimina risco de enquadramento. Ela continua existindo, mas não impede que o conteúdo seja lido dentro de um contexto eleitoral mais carregado.

Quais Perfis Correm Mais Risco

Esse problema tende a atingir mais fortemente perfis que falam de temas que encostam com facilidade em disputa política. Economia, empreendedorismo, comportamento, educação, segurança pública, religião, tecnologia, liberdade de expressão e temas institucionais entram facilmente nesse campo.

Não porque esses assuntos sejam proibidos.

Mas porque, em ano eleitoral, a fronteira entre opinião pública e influência política fica muito mais estreita. Quem tem audiência, recorrência e poder de convencimento não fala no vazio. Fala dentro de um ambiente em que forma, timing e circulação alteram o peso do que foi publicado.

O Que Passa a Exigir Mais Cuidado

Há três pontos que merecem mais atenção.

O primeiro é a estética. Quando o conteúdo começa a ficar com cara de campanha, o risco sobe. Isso vale para vídeo, edição, trilha, cortes, narração, ritmo e composição visual.

O segundo é o uso da IA. Se ela entra para reconstruir fala, imagem, contexto ou aumentar artificialmente a força persuasiva do conteúdo, a cautela precisa ser muito maior.

O terceiro é a circulação. Em ano eleitoral, o mesmo material pode ganhar outra leitura quando passa a ser recortado, republicado, impulsionado ou associado a uma disputa concreta.

Esses elementos não são periféricos. Eles ajudam a definir como o conteúdo será interpretado.

O Mercado Digital Ainda Está Atrasado Nessa Leitura

Parte da creator economy ainda trata risco eleitoral como se fosse um problema externo, quase exclusivo do universo político tradicional. Só que 2026 mostra outra coisa.

Quem vive de conteúdo, influência e opinião pública já está dentro desse ambiente, queira ou não. E a IA aumentou a chance de erro justamente porque tornou mais fácil criar peças ambíguas, polidas e altamente circuláveis.

O desafio agora não é sair do debate público. É publicar com leitura mais madura sobre o que o conteúdo faz no mundo, e não só sobre o que o autor quis fazer com ele.

Em 2026, Parecer Propaganda Já Pode Ser Problema

Esse talvez seja o ponto mais importante para fechar.

O risco eleitoral para creators não começa apenas quando alguém pede voto. Em muitos casos, ele começa antes, quando o conteúdo já está operando como algo mais próximo de propaganda do que de opinião, mesmo que o autor não tenha percebido isso.

Em 2026, a combinação entre ano eleitoral, plataformas mais atentas, circulação intensa e uso de IA deixou esse limite mais delicado.

Quem trabalha com conteúdo político, institucional ou opinativo precisa entender isso cedo. Porque, neste ciclo, parecer propaganda política já pode ser risco suficiente para gerar problema.

Sobre o autor:

Daniel Callejon Barani é advogado da Scartezzini Advogados Associados, com atuação em direito digital, contratos, LGPD e creator economy. Escreve sobre os impactos jurídicos da tecnologia sobre a nova economia da autoridade.

Para contato profissional:

daniel.barani@scartezzini.com.br | LinkedIn

Continue a leitura:

Outros artigos sobre Negócios Digitais e Economia da Influência

Perfil profissional de Daniel Barani

Publicado 14/05/26 por Daniel Barani.


Compartilhe:

© - Scartezzini Advogados. Site criado por Agência Javali.