No ambiente digital, nada desaparece de verdade.
A frase pode parecer óbvia, mas ela ganhou um novo peso à medida que o marketing de influência amadureceu e que conflitos entre marcas, agências e criadores se tornaram mais frequentes. Hoje, a maior parte dos litígios envolvendo influenciadores nasce de trocas de mensagens, conversas em aplicativos, prints de directs, áudios, comentários, e-mails ou até interações públicas que, em segundos, deixam de ser uma simples troca informal para se tornarem prova central em disputas jurídicas. A forma como essas evidências são produzidas, guardadas e interpretadas está redefinindo a responsabilidade de todos que atuam na economia da influência.
A naturalidade com que nos comunicamos nas redes sociais cria uma falsa sensação de informalidade. Um influenciador combina a entrega de conteúdo por WhatsApp, a marca responde por áudio, a agência orienta por e-mail, e o resultado é um acordo complexo sustentado por fragmentos de conversas espalhados em diferentes plataformas. Esse mosaico de interações, que deveria complementar o contrato ou a negociação formal, frequentemente acaba substituindo aquilo que deveria ter sido documentado por escrito desde o início. É nesse espaço de improviso que surgem os maiores conflitos — e é nele que as provas digitais ganham protagonismo.
O contencioso envolvendo influenciadores e marcas tem uma particularidade: os fatos quase nunca se desenrolam em um único espaço. Uma campanha começa no e-mail, evolui no WhatsApp, se ajusta no Instagram, recebe orientações finais em uma ligação e, depois, tem repercussões públicas nos comentários do conteúdo publicado. Cada pedaço dessa cronologia se transforma em evidência potencial. Nenhum detalhe é pequeno demais quando a narrativa dos fatos é construída a partir de mensagens que carregam contexto, tom, intenção e interpretação.
A facilidade com que prints são gerados e compartilhados adiciona outra camada de complexidade. De um lado, há o aspecto positivo: o print preserva uma conversa, registra um comportamento, comprova uma orientação. Ele é útil, acessível e funciona como ferramenta probatória poderosa. Do outro lado, há o risco: prints podem ser recortados, editados, descontextualizados ou parcialmente apresentados para construir uma narrativa conveniente. Eles revelam, mas também ocultam. E, nos processos judiciais, o que se vê é uma disputa pela versão mais convincente dos fatos — uma disputa mediada por fragmentos de telas.
A Justiça brasileira, ciente dessa nova realidade, tem se adaptado rapidamente. Já não há dúvida de que prints, mensagens, e-mails, directs e conversas em aplicativos são provas válidas. O desafio não é a admissibilidade, mas a credibilidade. Juízes analisam a integridade do arquivo, o contexto da conversa, a coerência da narrativa e, principalmente, a forma como essas evidências se conectam ao caso concreto. Um print isolado raramente encerra uma discussão; ele precisa dialogar com o restante do acervo probatório, com o comportamento das partes e com o histórico da relação.
Essa complexidade afeta diretamente a responsabilidade de quem atua no digital. Um influenciador que recebe orientação da marca por WhatsApp assume, ainda que sem perceber, o risco de replicar informações que podem estar incompletas ou incorretas. Uma marca que promete algo por mensagem rápida, sem formalizar as condições, cria expectativas que, se frustradas, podem gerar cobrança, dano moral ou reputacional. Agências que atuam como intermediárias também entram no jogo: quando orientam creators de forma ambígua ou deixam de registrar aprovações, tornam-se parte do problema — e, nos litígios, parte da prova.
A verdade é que as relações digitais se sofisticaram, mas a maturidade documental nem sempre acompanhou essa evolução. É comum ver influenciadores buscando respaldo em prints que não revelam toda a conversa, assim como marcas se defendendo com e-mails que contradizem mensagens enviadas por outros canais. Esse cenário gera incerteza, ruído e, muitas vezes, frustração. A disputa jurídica passa a depender da reconstrução de um quebra-cabeças formado por fragmentos digitais que nem sempre foram guardados com o cuidado necessário.
Nesse contexto, a prevenção assume um papel central. Para creators, a guarda das conversas deixou de ser uma precaução opcional e se tornou parte da rotina profissional. Registros de orientações, aprovações, mudanças de briefing e limites da campanha são fundamentais para evitar conflitos. Para marcas, a necessidade é inversa e complementar: oferecer instruções claras, coerentes e documentadas, evitando orientações verbais contraditórias ou pedidos informais que podem ser interpretados de formas distintas. A solidez do relacionamento depende de transparência e precisão — e ambas se constroem com registros consistentes.
O contencioso digital também revelou um aspecto importante: a emocionalidade das interações online. Discussões por mensagens são rápidas, reativas e facilmente desproporcionais. Comentários públicos podem ampliar divergências privadas. A forma como marcas e influenciadores lidam com crises nas redes tornou-se parte da prova, ainda que não oficialmente. O silêncio, a resposta imediata, a exclusão de postagens, a maneira como as partes interagem com o público — tudo isso molda a narrativa dos fatos e influencia a interpretação jurídica subsequente.
A era das provas digitais exige mais do que simplesmente capturar telas. Exige consciência. Exige responsabilidade. Exige maturidade em reconhecer que conversas que parecem informais podem se transformar em evidências centrais. Influenciadores precisam entender que suas mensagens são documentos. Marcas precisam compreender que suas orientações se tornam compromissos. E todos precisam aceitar que as redes sociais não são apenas ferramentas de comunicação, mas ambientes onde reputações são construídas e disputas são decididas.
O futuro do contencioso digital aponta para um mercado mais atento, mais documentado e menos improvisado. A informalidade sempre fará parte da dinâmica das redes, mas não pode ser a base jurídica de relações que movimentam dinheiro, reputação e confiança. A economia da influência continuará crescendo — e, com ela, a necessidade de que marcas, criadores e agências tratem suas interações com cuidado jurídico proporcional ao impacto que elas já têm.
Nada se perde no digital.
E, por isso mesmo, a melhor proteção está na clareza, na transparência e na consciência de que toda interação pode se transformar em prova.
Daniel Callejon Barani
Sócio – Scartezzini Advogados Associados
daniel.barani@scartezzini.com.br
Publicado 15/01/26 por Daniel Barani.
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